23 agoFranquias quase desconhecidas criam “impérios” em cidades pequenas

Escrito por Pedro Carvalho, do iG São Paulo

A Mr Mix, uma rede de lojas de milk-shakes, deve fechar o ano com mais de cem unidades espalhadas por quinze estados brasileiros. Está presente em cidades como Abreu e Lima (PE), Guará (SP) e Lauro de Freitas (BA), e novos pontos serão abertos em Pouso Alegre (MG), Itaboraí (RJ), Carpina (PE) e outros municípios com cerca de 100 mil habitantes – apenas uma fica numa capital, em Salvador. “Nascemos caipiras e continuamos caipiras”, diz Clederson Cabral, criador da franquia.

“Nascemos caipiras e continuamos caipiras”, diz Clederson Cabral, criador dos milk-shakes Mr Mix

É um exemplo de rede de franquia com faturamento expressivo que, por funcionar em cidades “pequenas”, ainda é uma marca quase desconhecida nos grandes centros. A Associação Brasileira de Franchising (ABF) não tem dados segmentados sobre a expansão das franquias nos municípios menores, mas especialistas da área entendem que essa seja uma tendência. “Nos últimos anos, tem havido uma interiorização desse tipo de negócio”, diz Marcos Nascimento, presidente da consultoria Cia de Franchising.

“As capitais estão com pontos comerciais caríssimos e isso está inviabilizando o investimento”, diz Nascimento. Para os empresários, a vida mais barata do interior facilita a expansão da rede. “Como o custo de abrir uma franquia é menor, aparecem muitos interessados, porque nem todo mundo tem meio milhão para começar um negócio”, diz Cabral – o investimento inicial na Mr Mix fica em torno de R$ 150 mil, enquanto o faturamento mensal médio das unidades é de R$ 35 mil, segundo o empresário.

A maioria das franquias que escolhe se expandir pelo interior tem mesmo o perfil de ser um negócio de baixo custo. Nos últimos anos, a rede de logística JadLog – que possui quase 500 unidades, todas de franqueados – abriu mais de cem pontos em localidades bem pequenas, como Caicó (RN), Formiga (MG) e Itacoatiara (AM). “Um dos fatores para isso ter acontecido é que não cobramos taxa de franquia, assim o investimento para abrir uma unidade fica em torno de R$ 30 mil”, diz Ronan Hudson, diretor comercial da rede.

A tendência, segundo os consultores, começou há alguns anos – e não parece perder força. Na semana passada, uma feira de novos negócios em São José do Rio Preto (SP), feita pela Cia de Franquias e a pela ABF, teve 6,5 mil interessados em se tornar um franqueado no interior paulista. “Nessa semana, fizemos outra em Campinas. Só a Cia de Franquias teve 750 cadastros, sendo que havia mais de 40 estandes”, diz Nascimento. A próxima, no mês que vem, será em Maringá (PR).

Além do aluguel caro das capitais, outros fatores contribuem para a mudança de eixo dos franqueados. “A mão de obra e a carga tributária são mais baratas nas cidades pequenas. Ao mesmo tempo, na outra ponta, é possível cobrar quase o mesmo preço pelo produto ou serviço, porque o poder aquisitivo dessa população aumentou bastante nos últimos anos”, afirma Luis Henrique Stockler, sócio-diretor da consultoria de franquias e varejo Ba Stockler.

Negócios com esse perfil atuam nos mais diferentes nichos, de logística e milk-shakes aos serviços financeiros. É o caso da Vazoli, que nasceu em Severínia, uma cidade de 14 mil habitantes no interior de São Paulo (para registro, a Mr Mix surgiu em Paulínia, também em SP, onde moram 85 mil pessoas). A rede, que funciona no sistema de franquias, atualmente possui 46 unidades, em cidades como Olímpia (SP), Pitangueiras (SP), Guapeaçú (SP) e Pindorama (SP) – apenas três unidades ficam em municípios de mais de 100 mil habitantes.

“Nos grandes centros, já tem muita gente que presta esse tipo de serviço, mas nas cidades pequenas a gente não tem concorrência nenhuma”, afirma Eric Vaz de Lima, diretor da financeira, que deve fechar o ano com 66 franquias. “Nosso melhor faturamento é em Severínia, com R$ 180 mil por mês, o que dá um lucro mensal de R$ 15 mil, bastante bom para uma cidade de 14 mil habitantes”, diz.

Às vezes, os concorrentes das franquias “caipiras” são marcas já reconhecidas nas grandes cidades, mas nem sempre isso é uma ameaça. “As marcas do interior acabam sendo conhecidas entre os moradores dessas cidades, principalmente porque se instalam em shoppings que são centros supra-regionais, que atraem pessoas de vários municípios da região”, diz Stockler. Além disso, “a divulgação numa cidade pequena é mais barata, porque precisa atingir menos pessoas”, completa Nascimento.

A “intimidade” conquistada com os moradores dessas cidades também pode ajudar a consolidar a marca. Para Cabral, o principal competidor da Mr Mix é a rede de lanchonetes Bob’s, que também faz sucesso com milk-shakes. “Mas o pessoal da cidade já conhece nosso produto. Em 2010, o Bob’s abriu uma loja do lado da nossa em Uberlândia (MG) e acabou fechando pouco depois”, diz. “A gente presta um serviço mais próximo do cliente, uma coisa bem típica do interior. Acho que se uma concorrente grande chegar na cidade não vai conseguir fazer o mesmo”, completa Lima, da Vazoli.

Para os especialistas, a interiorização não é vista apenas no Sul e no Sudeste, onde os municípios menores sempre tiveram bons índices econômicos. “É impressionante o que tem de franquia se instalando no interior do Nordeste”, diz Stockler. Na verdade, a tendência também não se restringe ao setor das franquias. “A renda e o investimento estão se deslocando para o interior de várias formas nos últimos anos”, conclui Nascimento.

Texto extraído de http://economia.ig.com.br/2012-08-23/franquias-quase-desconhecidas-criam-imperios-em-cidades-pequenas.html