02 agoGrife alemã Birkenstock abre primeira loja própria em São Paulo

Por Marília Marasciulo, d’O Estado de São Paulo

Birkenstock

(Foto: Divulgação)

Grandonas, com ar meio hippie e sinônimo de conforto, volta e meia as sandálias Birkenstock viram objeto de desejo no mundo fashion. Nos últimos dois anos, graças à tendência da moda normcore, que prioriza silhuetas soltas, modelagem simples e cores neutras, as Birken têm vivido um desses momentos. E, além das sandálias clássicas, que existem há dois séculos e meio, ganharam versões supercoloridas e com detalhes EVA. Embora garanta que o objetivo da marca alemã não seja se tornar parte da indústria da moda de consumo rápido, o diretor de comunicação, Jochen Gutzy, explica que há, sim, planos de expansão. “Nós decidimos tornar o produto mais disponível para o mercado, estamos em um processo de globalização”, afirma. Uma das formas de alcançar isso, segundo ele, é abrindo novas lojas. Na última quinta-feira, 28, São Paulo recebeu a segunda unidade própria da grife fora da Alemanha – a primeira na América (a outra fica em Verona, na Itália). Ao Estado, de passagem pelo Brasil, ele falou mais sobre os planos de negócios da marca.

Essa é a segunda loja própria da Birkenstock fora da Alemanha, a primeira no continente americano. Por que abrir uma loja no Brasil?

No Brasil, vemos um grande potencial, porque o estilo de vida é muito próximo ao DNA da nossa marca. O Brasil é o País das sandálias, e há marcas excelentes, com as quais não queremos competir, só queremos que as pessoas também comprem pelo menos um par de Birkenstocks. A maioria dos nossos produtos é vendida no varejo, mas mudamos muito nos últimos três anos e queríamos deixar nossas novidades mais visíveis ao consumidor. Queremos surpreendê-lo. Ninguém sabe que temos uma coleção tão grande: são quase 800 estilos, existe um para cada pessoa, cada país, cada mercado. E as lojas são uma das melhores formas de fazer isso acontecer. Também queremos abrir uma loja no Rio de Janeiro.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

E por que agora, considerando que o País enfrenta uma de suas piores crises econômicas?

Porque nós acreditamos que podemos acrescentar algo a esse mercado, nós criamos o footbed (entressola característica da marca, que se adapta anatomicamente ao pé). Acreditamos que a economia vai ser recuperar nós próximos dois anos, então esse parece o momento certo para começar uma nova estrutura de negócios. Não precisamos ganhar dinheiro rápido, estamos pensando em um mercado com mais de 200 milhões de consumidores em potencial. É claro que todos temos contas a pagar. Mas o consumidor brasileiro já parece confortável com a nossa marca, por isso agora estamos mais preocupados em tornar o produto disponível para eles.

Quais são suas expectativas para essa loja?

Somos uma empresa familiar, na sexta geração, e atuamos há dois séculos e meio. Com essa herança, você acaba não pensando em ciclos de negócios, você pensa nas gerações do futuro. Não temos que alcançar um plano de negócios muito estrito, pensamos a longo prazo. Não se trata de fazer negócios rápidos e vender muito em pouco tempo.

As sandálias parecem se tornar um item de desejo fashion em ciclos. Por que você acha que isso acontece?

É exatamente assim. Nós vemos períodos de crescimento rápido da demanda a cada cinco ou sete anos. Também observamos uma mudança nos modelos buscados, no momento a febre parece estar ao redor do Boston (veja foto na galeria abaixo), especialmente nos EUA. Há dois tipos de comportamento. De um lado, há uma tendência geral e a longo prazo de consumidores que buscam um sapato confortável. Não tem nada a ver com moda e tem acontecido há cinco anos mais ou menos, e acredito que não deva mudar. De outro, temos a tendência de moda. Mas o engraçado é que a gente não se vê como parte da indústria da moda, nós na verdade fazemos de tudo para nos proteger dessas tendências de moda.

Ainda assim, muitas marcas criam suas próprias versões das sandálias quando elas viram tendência.

A marca parece ser uma fonte sem fim de inspiração para uma indústria que muda rapidamente e tenta se reinventar a cada temporada. Acho que é por causa do design icônico. Mas é algo que simplesmente acontece, a gente não incentiva e somos muito seletivos em relação a colaborações com estilistas ou marketing. Nós apenas aceitamos. A gente não quer queimar a marca, mas nós decidimos aproveitar algumas dessas ideias de tendências para manter a chama acesa e para conquistar jovens antenados em moda. Sem, é claro, negligenciar nosso DNA, que é conforto, não moda.

E por que acha que o negócio continua vivo mesmo quando elas não são tendência?

Tem a ver com a qualidade. É possível argumentar que isso é ruim, porque quando a qualidade é muito boa, você não precisa comprar um novo. Mas eu acredito que seja o contrário, porque assim que você se conecta ao produto e percebe quão confortável e bom para a saúde ele é, você aceita gastar dinheiro em um novo modelo. Assim que a pessoa conhece as sandálias, ela se torna não só uma usuária, mas uma embaixadora, recomendando aos amigos. Isso é o que nos mantém ativos há 240 anos.

De um modo geral, como estão as vendas no mundo?

Estão explodindo! É claro que existe um momento fashion por trás desse crescimento, mas 90% do sucesso é mérito nosso. Nós simplesmente decidimos tornar o produto mais disponível para o mercado, estamos em um processo de globalização. As sandálias estão disponíveis em 90 países, mas nossa distribuição não é boa no leste europeu, na Ásia e a na América do Sul. Existe um potencial ilimitado para o crescimento. Nós estamos colocando nossos esforços mais no desenvolvimento do produto para alcançar esses locais do que em marketing.

Em mais de dois séculos de história, o design do sapato raramente mudou e, se mudou, foi em pequenos detalhes como cor ou material. Como vocês determinam o que pode ser uma tendência para uma sandália da Birkenstock?

Houve algumas mudanças na forma como o produto é feito, mas em termos de design as sandálias são as mesmas que as criadas antigamente. Talvez ser um designer de produtos na Birkenstock seja um pouco chato, porque nós realmente não criamos estilos novos. A gente acrescenta algumas tendências de cor ou material, mas só para manter a coleção fresca e jovem. Talvez isso também explique por que é tão atraente para a indústria da moda: é um sapato que vai bem com todos os estilos, um clássico atemporal.

O que mais mudou nesses anos todos?

O que mudou nesses anos todos é que está se tornando mais aceitável sair por aí com esses sapatos feios. Mas nós temos, sim, alguns produtos novos, como a linha em EVA. Em princípio, criamos para serem usadas na praia, mas na Ásia, por exemplo, ela virou um item fashion. Nós também temos sapatos fechados. Mas a essência, o footbed, é a mesma em todos.

Texto extraído de: http://emais.estadao.com.br/noticias/moda-beleza,birkenstock-abre-em-sao-paulo-segunda-loja-propria-fora-da-alemanha,10000066416

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