11 marOnda de fusões no varejo preocupa a indústria

Por Antônio Santos Junior, parceiro Universo Varejo

A recente onda de fusões no comércio varejista brasileiro, no segmento de eletro-eletrônicos, impôs uma nova preocupação à indústria destes produtos. A fusão do Ponto Frio com o Pão de Açúcar, que posteriormente agregou as Casas Bahia, originou a maior rede varejista do país. Com o anúncio do surgimento da Máquina de Vendas, fusão da baiana Insinuante com a mineira Ricardo Eletro, criou-se a segunda maior rede do Brasil.

A Máquina de Vendas estabeleceu metas agressivas, que segundo seus diretores algumas destas metas serão atingidas com futuras incorporações.

Esta elevada concentração no varejo na mão de três grandes redes (Globex, Máquina de Vendas e Magazine Luiza) acendeu o alerta na indústria de eletrodomésticos. Pois com menos compradores, a indústria terá menor poder de barganha. Ou seja, nenhum fabricante quer ver seu produto longe destes três grandes canais de vendas.

Poderia, talvez, caracterizar a formação de um cartel e o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) deve pronunciar-se sobre isso.

As fusões, além de concentrar as redes varejistas nacionais, estabelecem um elevado custo de entrada para outras firmas do setor. Algumas marcas já estão estabelecidas no varejo, mas pouco voltadas ao segmento de eletrodomésticos e móveis, caso de Walmart e Carrefour. Elas enfrentaram mais problemas para expandir-se, porém capitalizar-se com suas respectivas matrizes pode ser uma solução.

No entanto, pequenas redes vão sofrer com uma concorrência implacável. De um lado a ambição das redes maiores em comprá-las, de outro como sobreviver neste ambiente. Sem poder de barganhar maiores descontos com a indústria (pois os grandes já haverão levado vantagens nestas negociações) e com capacidade limitada de financiamento de suas compras e de concessão de créditos para suas vendas.

O que sim parece um fato a ser verificado nos próximos balanços é a transferência de margens da indústria para o varejo.

As indústrias venderão a grandes varejistas que exigirão grandes descontos, não conceder desconto em suas margens pode acarretar numa redução de suas vendas. Suas margens podem manter-se no mesmo patamar através da venda para os pequenos varejistas, entretanto aumentar a margem para estes clientes é minar a sustentação do negócio do próprio cliente.

Se os preços ao consumidor final permanecerem inalterados, a transferência de margem da indústria ao grande varejista estará assim consolidada. Num exemplo simples1:

Uma geladeira que tenha custo total de fabricação de R$ 1.000,00 é repassada atualmente ao varejo por R$ 1.200,00, que pode repassar ao consumidor final por R$ 1.440,00. Aqui sugerindo uma margem de 20% tanto para indústria quanto para o varejo.

A grande concentração da força de vendas exerce pressão para a baixa das margens da indústria. Assim supondo que estas consigam um desconto de 25%, as margens da indústria seriam então de 15%.

Desta forma o preço de compra pelo varejo passaria a R$ 1.150,00. Enquanto as grandes varejistas poderiam continuar cobrando seus 20%, fazendo o preço final ficar em R$ 1.380,00. Uma redução de 4,2% no preço anterior, que não afeta necessariamente a lucratividade do grande varejista, mas suficiente para minar a estratégia de vendas das pequenas redes.

Entretanto, há a possibilidade destes grandes varejistas não repassarem estes ganhos integralmente ao consumidor final e continuar a cobrança dos R$ 1.440,00 iniciais. Elevando, assim, a margem para 25,2%.
Ainda é uma grande incógnita qual será a reação da indústria a este fenômeno de fusões que ocorrem no varejo atualmente. Ainda não se sabe ao certo qual pode ser a política de preços adotada pelos grandes varejistas.

Sem embargo, pode-se asseverar que haverá efeitos sobre as pequenas redes e sobre os pequenos industriais. E é sobre esses efeitos que o CADE deve pronunciar-se. Estaremos de olho!

1Neste exemplo, serão desconsiderados impostos e demais custos, como transporte.

Antônio Santos Junior – Economista, mestre em Economia pela UBA – Universidade de Buenos Aires, com experiência no mercado financeiro brasileiro e argentino. Colaborador do Boletim UV e atualmente realiza estudos econômicos voltados ao mercado asiático. – santosa20@gmail.com