16 maioShoppings desaceleram expansão diante de superoferta e redução de demanda

Escrito por Adriana Mattos, da Valor Econômico

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A conta da expansão acelerada chegou ao setor de shopping centers. A superoferta de empreendimentos em algumas praças, a dificuldade de encontrar lojistas em condições econômicas para ocupar os pontos e o encarecimento dos projetos, que pressionam índices de endividamento, criaram um cenário de ajustes no mercado. Desaceleração do varejo no último ano e escalada na taxa de juros também têm forte peso nesse novo cenário, encerrando a última fase de bonança iniciada há cerca de cinco anos.

No ano passado, o Valor já havia informado que o setor começava a enfrentar dificuldades e revisar planos de aberturas de empreendimentos. A questão voltou a ser discutida nesta semana após companhias de grande porte terem aberto novas informações, para analistas e investidores, sobre planos e resultados no início do ano.

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Ontem, a Sonae Sierra Brasil, com 10 shoppings na carteira, informou que o crescimento acelerado da área para locação no país em 2012 e 2013 e uma demanda de lojistas menor do que a esperada alongou processos de maturação dos shoppings e limitou o crescimento dos aluguéis do setor e da companhia.

“Houve um aumento brusco de área bruta locável (ABL) no país. Há cidades que não estão conseguindo digerir isso”, disse José Baeta Tomás, presidente da Sonae Sierra no Brasil. A própria empresa aumentou em 50% a sua área para locação em um ano. “Com isso tivemos que suportar custo de ocupação maior”. Lojas vagas, especialmente em novos empreendimentos, pressionam esse custo porque o shopping acaba tendo de arcar com vacâncias altas.

“É uma situação que até pode criar ativos interessantes para compra, mas provavelmente muitos shoppings que não derem certo e forem vendidos não serão bons negócios”, disse.

Executivos ouvidos pelo Valor apontam as cidades de Vila Velha (ES), Londrina (PR), Goiânia (GO), Sorocaba (SP) e Limeira (SP), Ribeirão Preto (SP), Fortaleza (CE) entre os municípios com superoferta de shoppings.

Com níveis de endividamento considerados altos pelos analistas, a General Shopping foi alvo, dias atrás, de um rebaixamento de rating corporativo da agência de classificação de risco Moody’s. Desaceleração das vendas no varejo e maiores patamares de alavancagem pesaram na revisão. A agência ainda ressaltou que a companhia pode enfrentar problemas de locação com a abertura de três novos empreendimentos no início de 2015 – um outlet no Rio de Janeiro e dois shoppings em Guarulhos (SP) e Atibaia (SP).

O rating corporativo foi alterado de Ba3 para B1, ou quatro níveis abaixo do grau de investimento. “Avaliações negativas ocorreriam caso a empresa tivesse qualquer dificuldade com a execução dos projetos”, escreveu em relatório Griselda Bisono, analista da Moody’s. Os projetos atualmente têm taxa de ocupação superior a 85%.

A General Shopping não pode se manifestar porque divulga resultados do primeiro trimestre hoje e está em período de silêncio. O comando da companhia deve comentar o rebaixamento de sua nota hoje em teleconferência aos analistas.

Dados atualizados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) apontam para abertura de 38 shoppings em 2014 – eram 495 empreendimentos no país no fim de 2013. A previsão em janeiro era inaugurar “mais de 40” no ano, mas o número foi revisado e pode sofrer novas mudanças, segundo a entidade. A BRMalls, maior empresa do setor no país, comentou nesta semana, em reunião com associação de lojistas, que o setor não deve abrir mais de 25 empreendimentos em 2014. A Sonae Sierra Brasil prevê cerca de 20 aberturas.

Fatores ligados ao ambiente macroeconômico mais adverso explicam esse momento. Crédito mais caro e juros mais altos afastam clientes das lojas e dos shoppings, afetando vendas e previsões de crescimento. Isso leva os grupos a pensar mais antes de colocar novos shopping nas ruas, mesmo considerando projetos a longo prazo. Mas há outros fatores pouco visíveis, a princípio, e fundamentais nessa análise.

“Há menos lojistas dispostos a abrir a terceira ou quarta loja quando a situação econômica se deteriora. O empresário, dono da franquia, acaba esperando melhorar o desempenho de alguma loja antes de investir de novo”, afirma Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da GS&BW, consultoria especializada em shopping centers.

“Vemos que a indústria tem aberto shoppings pelo Brasil com baixíssimo número de lojas. A gente se nega a fazer isso”, disse em recente teleconferência, Carlos Jereissati Filho, presidente da Iguatemi.

Baixa taxa de ocupação pressiona custos operacionais. Além disso, após inaugurar um empreendimento, os juros do empréstimo para a obra têm que ser contabilizados como despesa financeira nos balanços das companhias do setor.

Valor apurou que existe, entre grandes grupos de shopping, disposição maior em negociar os contratos de abertura de lojas em novos empreendimentos. “Tem empresa dando desconto maior no aluguel para que o lojista abra o ponto junto com a inauguração do shopping. Isso para não ficar com os corredores cheios de tapumes”, diz um executivo do setor.

As maiores empresas de capital aberto do setor têm reagido a esse cenário praticamente da mesma forma: decidiram olhar para dentro de casa e expandir mais shoppings do que abrir.

Líder do segmento, a BRMalls tem oito projetos de expansão na carteira e três novos shoppings para abrir até o fim de 2015 – a empresa chegou a inaugurar dois por ano. Nas oito expansões, investirá quase R$ 500 milhões – valor que daria para abrir dois shoppings.

A Aliansce Shopping Centers prepara sete expansões para 2014 e 2015 e nenhuma abertura até dezembro (a empresa já chegou a inaugurar três empreendimentos em um único ano). Pela primeira vez na história da Aliansce, ela não abrirá empreendimentos em um ano.

“Expansão consome menos capital, é ação defensiva e com rentabilidade superior”, disse Henrique Guerra, diretor da Aliansce. “No ambiente atual, com maior estoque em área bruta locável, vamos ampliar a área de shoppings que já temos”, disse. “Nossa meta também é reduzir nível de endividamento em 2014”.

A companhia pode vender até dois shoppings neste ano, ampliando caixa e reduzindo alavancagem. A BR Malls também tem vendido empreendimentos em que não pode ampliar participação e com isso, recebe capital novo no caixa. Desde o início do ano vendeu o Shopping Metrô Tatuapé, Shopping Pátio Belém e o Big Shopping, além de 49% do Ilha Plaza Shopping. E embolsou quase R$ 200 milhões com isso.

Texto extraído de: http://www.valor.com.br/empresas/3550058/diante-de-superoferta-e-demanda-menor-shoppings-pisam-no-freio#ixzz31tiQywBu